quinta-feira, 13 de março de 2014

Flagrantes de Cartier-Bresson







Fotografar é encontrar o momento
decisivo, é colocar na mesma linha
de mira a cabeça, o olho e o coração.

(Henri Cartier-Bresson)

 


Morto há uma década, em 2004, aos 95 anos, aclamado como um dos maiores nomes da história da fotografia, Henri Cartier-Bresson é o grande homenageado do Centro Pompidou de Paris, que apresenta a mais completa retrospectiva já feita sobre sua obra. Uma unanimidade quando se fala em arte da fotografia, Cartier-Bresson inventou o conceito de “momento decisivo” e alterou completamente os critérios de qualidade e composição fotográfica.

A exposição no Centro Pompidou, que vai permanecer em cartaz até 9 de junho e depois segue para Madri e outras capitais de países da Europa (veja link para uma visita virtual no final deste artigo), reúne uma seleção de 500 fotografias em preto e branco e um vasto acervo de documentos diversos de Cartier-Bresson e sobre Cartier-Bresson, incluindo filmes, desenhos, pinturas, cartas, rascunhos, livros, catálogos, jornais e revistas.

Um fotógrafo deve respeitar a atmosfera de uma cena para integrar o cenário de fundo, acima de tudo, para evitar qualquer artifício que suprime a verdade humana. Também deve esquecer a câmera e quem a manipula” – repetia Cartier-Bresson em entrevistas. A vasta e sempre atual produção do fotógrafo, que inclui retratos de famosos e anônimos, flagrantes impressionantes de fotojornalismo e registros de viagens por vários países, já mereceu estudos célebres dos mais importantes pensadores da fotografia – de Roland Barthes a Susan Sontag, de Paul Valery a Jean Baudrillard e Fredric Jameson – mas nunca havia sido reunida em uma amostra abrangente como a que apresenta o Pompidou.







Henri Cartier-Bresson em ação:
 no alto, o fotógrafo em 1975, quando
decidiu abandonar o fotojornalismo
para se dedicar exclusivamente ao
desenho e à pintura. Acima, duas de
suas fotografias mais conhecidas,
ambas de 1932: Allée du Prado, 
Marseille, France; e o homem que
salta sobre a água em Derrière la
Gare Saint-Lazare. Abaixo, o
fotógrafo em 1932, quando retornou
a Paris, depois da temporada de um
ano na África; L'escalier en spirale
et les enfants, fotografia feita em um
orfanato em Paris, em 1955, trabalho
em parceria de Cartier-Bresson e sua
segunda esposa, Martine Franck,
também fotógrafa; e os anjos e freiras
nas ruas de Paris, na foto de 1955. 
Todas as fotografias reproduzidas
nesta página estão no catálogo
da exposição organizada pelo
Centro Pompidou de Paris
















Organizada cronologicamente, em três grandes núcleos, a exposição é uma parceria do Centro Pompidou com a fundação que mantém o acervo do fotógrafo – a Fondation Henri Cartier-Bresson, que foi criada por ele próprio em 2003, com sua esposa e a única filha. A exposição também inclui imagens inéditas do fotógrafo, considerado por muitos como “pai do fotojornalismo”, além das obras que ele realizou em conjunto com vários outros artistas – entre elas os registros de seu trabalho no cinema, como assistente de Jean Renoir e como diretor de documentários.




Surrealismo & fotojornalismo



O primeiro núcleo da exposição, que cobre o período de 1926 a 1935, destaca a ligação do fotógrafo com André Breton e outros artistas do Surrealismo, suas viagens pela Europa, África, México e Estados Unidos e sua descoberta da fotografia: segundo os biógrafos, a fixação de Cartier-Bresson com a atividade de fotógrafo surgiu em 1932, quando ele viu pela primeira vez na revista “Photographies” uma foto do húngaro Martin Munkacsi que o impressionou muito. A foto de Munkacsi registrava três rapazes negros no Congo correndo nus contra a luz, em direção ao mar. Desde então, uma câmera Leica 35mm passou a ser sua companhia permanente.








Flagrantes de Cartier-Bresson: acima,
Livourne, Toscane, Italie, fotografia
em composição surrealista de 1933;
Couples par la Seine, de 1936; e
Femmes musulmanes en prière,
Srinagar, Cachemire, de 1948.
Abaixo, três imagens do pós-guerra
de Cartier-Bresson na América,
em 1947: um homem negro enforcado
no Mississippi; negros no Harlem,
em Nova York; e três mulheres
em Los Angeles, Califórnia



O segundo núcleo, que vai de 1936 a 1946, destaca a atuação política de Cartier-Bressn: seu engajamento na luta contra o fascismo, sua participação como colaborador em jornais e revistas de militância comunista e socialista, sua atuação na Resistência Francesa contra os nazistas e sua extensa cobertura sobre a Segunda Guerra Mundial. Quando explodiu a guerra, ele alistou-se no exército francês e acabou prisioneiro das tropas nazistas, mas conseguiu fugir e juntar-se à Resistência.

O terceiro núcleo da exposição vai do fim da Segunda Guerra Mundial à década de 1970, quando ele decidiu abandonar as atividades de repórter fotográfico. Em 1947, há um capítulo especial em sua biografia e na história da fotografia – é quando Cartier-Bresson fundou a agência de fotógrafos Magnum, junto com Robert Capa, Bill Vandivert, George Rodger e David Seymour e começou o período mais sofisticado de seu trabalho, cumprindo pautas de fotojornalismo em vários países sob encomenda de publicações internacionais como as revistas “Life”, “Vogue” e “Harper's Bazaar”.











Na apresentação à exposição no Centro Pompidou, o curador Clement Cheroux destaca que o objetivo principal da retrospectiva, além de demonstrar que a trajetória de Cartier-Bresson se confunde com os avanços da fotografia no século 20, é lançar luzes sobre alguns aspectos da obra do fotógrafo que permaneciam como referências cifradas apenas para especialistas e pesquisadores de sua obra – especialmente as questões políticas e o surrealismo. 
 



Fotografia como Grande Arte



Segundo o curador Clement Cheroux, as questões políticas ficam evidentes quando se observa cada uma de suas imagens a partir do contexto da época, na Segunda Guerra e em outros conflitos armadas ao longo do século 20, mas também nas cenas impressionantes de linchamentos de negros nos EUA, nos movimentos populares nas ruas da China ou da Índia, nos processos de independência das ex-colônias francesas na África, na Ásia, na América e nas barricadas dos estudantes nas ruas de Paris, em maio de 1968.


 

Acima, a célebre fotografia de 1931
de Martin Munkacsi que, segundo
os biógrafos, provocou uma fixação
em Cartier-Bresson com o ofício de
fótografo. Abaixo, cenas parisienses
de Cartier-Bresson: o garotinho feliz
em Rue Mouffetard, Paris, 1954;
o trabalhador braçal em Les Halles,
Le Marché Central, fotografia
de 1952; e os beijos flagrados
em Jardin des Plantes, 1959









O ponto de vista especialíssimo de Cartier-Bresson, que demonstra à perfeição os preceitos seculares da proporção áurea aplicada à fotografia, também deve muito ao Surrealismo, segundo Cheroux, que destaca a influência de André Breton na formação do fotógrafo. Uma influência reconhecida pelo próprio Cartier-Bresson em entrevistas e em suas últimas anotações – entre elas, uma confissão datada de 2003: "O surrealismo teve um efeito profundo em mim e toda a minha vida eu fiz o meu melhor para nunca mais traí-lo”.

Neste contexto, até mesmo algumas das imagens do fotógrafo mais conhecidas do grande público – como aquela foto em que um homem salta sobre a água na Gare Saint-Lazare em Paris, em 1932 – assumem novos sentidos e possibilidades de interpretação que não afastam nem diminuem seu valor “jornalístico”, mas elevam o registro fotográfico à condição explícita de grande arte. Estudioso dos cálculos geométricos e das perspectivas desde a juventude, Cartier-Bresson é um caso raro que conseguiu reunir, ao “realismo” dos flagrantes em fotojornalismo, um sem número de nuances e sugestões sobre os absurdos e impasses da condição humana. 
 

por José Antônio Orlando.



Para visitar a exposição Cartier-Bresson no Centro Pompidou, clique aqui.


Para comprar o livro Cartier-Bresson, Imaginário Segundo a Natureza,  clique aqui.





 







Flagrantes de Cartier-Bresson: acima,
Simone de Beauvoir em Paris, 1946,
e uma cena prosaica registrada em
Camagey, Cuba, 1963. Abaixo, um
anônimo visitante na exposição de
Cartier-Bresson no Centro Pompidou,
em Paris; e Cartier-Bresson em ação
em Nova York, em 1961, em
fotografia de Dennis Stock






11 comentários:

  1. Há muito tempo atrás testemunhei um acidente de trânsito. Eu estava distraído e ao ouvir o som forte da batida do veículo em uma pessoa eu me voltei instantaneamente e vi - em câmera lenta - a trajetória que o corpo descreveu no ar até atingir o chão. Aí, tudo voltou ao normal. Sempre que vejo uma foto do Cartier-Bresson me vem a ideia de que ele, quando estava fotografando, percebia tudo em câmera lenta e, por isso, podia escolher e captar sempre o momento perfeito. Um Mestre!...

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  2. Pedro Paulo Oliveira15 de março de 2014 18:21

    Eu estou realmente cansado de ver coisas tolas e sem sentido apresentadas na imprensa como se fossem obras-primas da fotografia. Quando se observa as imagens de Cartier-Bresson a gente tem a verdadeira noção da arte da fotografia. Hoje todo mundo se acha fotógrafo, mas poucos sabem o que é uma grande foto. Sinal dos tempos. Os tempos para as pessoas pobres e ignorantes. Este blog Semióticas tem a força de um antídoto. Bravo, Semióticas! Bravo, José Orlando!

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  3. Márcia Maria Alves15 de março de 2014 20:10

    Parabéns pela beleza do blog e pelas matérias inteligentes e originais. Sou sua fã.
    Márcia Maria Alves

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  4. Parabéns, professor. Seu blog é um espetáculo. / Ricardo Silveira

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  5. ótimo texto.

    Daniel Antônio

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  6. O melhor texto que já encontrei sobre Cartier-Bresson, José. E veja que ele é meu fotógrafo preferido e pesquiso sobre ele há alguns anos. Parabéns. Seu blog Semióticas é um espetáculo sem comparação com nenhum outro. Me aceita como fã de carteirinha?

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  7. Carlos Henrique Ribeiro24 de maio de 2014 09:10

    Meu fotógrafo favorito! Confesso que sabia pouco sobre Cartier-Bresson até que encontrei esta sua matéria, José Antônio Orlando. Parabéns. Seu blog Semióticas é mais do que sensacional!

    Carlos Henrique Ribeiro

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  8. Sensacional. Parabéns por tanta beleza e sabedoria.

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  9. Absolutamente magnífico ! Um olhar singular/único !

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  10. Maravilhoso o trabalho de Henri Cartier Bresso . Arte em seu melhor estilo.

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