sábado, 7 de dezembro de 2013

Jim Morrison aos 70







Para alguém que morreu tão jovem, aos 27 anos, personificando um dos grandes mitos de uma geração que teve como palavra de ordem o lema "não confie em ninguém com mais de 30 anos", a constatação soa como um paradoxo ou ao menos como ironia: uma das personalidades lendárias do primeiro time da Era do Rock chegou aos 70 anos. James Douglas Morrison, que ganhou o mundo como Jim Morrison, nasceu em Melbourne, Flórida, em 8 de dezembro de 1943, e em sua breve e fulgurante trajetória de poeta, pensador, roqueiro, líder da banda The Doors, o Rei Lagarto (King Lizard), como ele se autodefinia – ou ainda "Mr. Mojo Risin'", um anagrama de "Jim Morrison", refrão na música "LA Woman", no álbum com o mesmo nome, o último que gravou – reuniu à tradição dos bardos visionários, “malditos”, o comportamento libertário como ação política e o êxtase do xamanismo, componente místico sem precedentes e ainda sem sucessores na cultura de massas.

A imagem de Jim Morrison, sua poesia e suas performances, provocam ainda hoje uma estranha sedução – mais de 40 anos depois de sua morte cercada de mistérios em Paris, em 3 de julho de 1971, aos 27 anos. Mas o que há em comum entre o rock'n'roll, a poesia e as religiões ancestrais? A questão, central para a legião de fãs de Jim e para todos os estudos biográficos assinados por jornalistas e pesquisadores que seguiram a trilha do King Lizard, fornece o fio condutor para o livro “Jim Morrison: O poeta-xamã”, lançamento da Editora UFMG.

Didático, investigativo, o autor, que é professor da Faculdade de Letras da UFMG, convida o leitor a uma viagem fascinante em busca de respostas a partir da transcrição dos poemas em versão original e em português. Nos caminhos que se bifurcam, surge em detalhes a trilha de brilho intenso de Jim Morrison. No trajeto da argumentação sobre a definição de "poeta-xamã", as afinidades eletivas entre a contracultura, a tradição literária e o misticismo, em meio a referências incomuns para um roqueiro que incluem a mitologia da Antiguidade Clássica, os filhos de Zeus, Dionísio, Apolo, os povos pré-colombianos, Baudelaire, Rimbaud, Nietzsche, Freud, Kafka, Lévi-Strauss, Castaneda, Kerouac, entre muitos outros poetas, artistas, pensadores.






O poeta-xamã: no alto e acima,
Jim Morrison fotografado em
1968, em New York, por Yale Joel.
Abaixo, outra imagem da sessão em
estúdio com Yale Joel e fotografia de
Ken Regan que registra a performance
de Jim e The Doors no palco, no
Westbury Music Fair, em janeiro
de 1970, e a capa do livro
Jim Morrison: O poeta-xamã







Amoroso, místico, científico



O perfil de Jim Morrison, como destaca o autor do livro "Jim Morrison: O poeta-xamã", Marcel de Lima Santos, vai muito além das fotografias do astro do rock reproduzidas ao infinito há quase meio século. Jim é um personagem surpreendente, sofisticado, ao mesmo tempo amoroso, místico, científico, que escapa a qualquer rótulo simplificador porque ultrapassa os limites tênues entre arte, magia, política, para alcançar as grandes questões de nossa época – questões que não por acaso explodiram na década de 1960 e mantêm uma atualidade que impressiona, como nos versos do século 19 de outro poeta místico, William Blake, fonte de inspiração para Jim e The Doors: “Se as portas da percepção estivessem abertas, tudo pareceria como sempre foi – infinito”.

Na presença fulgurante de Jim, autêntico Orfeu imerso no turbilhão industrial da cultura de massas, com seus escritos e performances de poeta xamã, o livro reúne citações eruditas ao exercício semiótico em detalhes reveladores, essenciais para a desconstrução e a busca do entendimento sobre o mosaico de complexidades que conduz a trajetória do artista e que sua obra representa. Exatamente como o xamã ancestral, que detém os segredos de outros mundos e compartilha, com doses generosas de lógica e magia, sonhos míticos habitados por utopias e deuses e espíritos.








Além de “Jim Morrison: O poeta xamã”, há uma extensa lista de livros sobre Morrison lançada no Brasil – incluindo muitas biografias e fotobiografias, estudos sobre sua poesia e sobre a trajetória da banda, também apresentada no filme ficcional de Oliver Stone, “The Doors”, de 1991, com a convincente performance de Val Kilmer como protagonista. Há ainda os dois livros de poemas que Jim Morrison publicou e as duas coletâneas de inéditos, póstumas, todos lançados pela editora portuguesa Assírio & Alvim: “Os Mestres e as Criaturas Novas”, “Uma Oração Americana”, "Abismos" e “Últimos Escritos”. A mesma editora lançou “Daqui Ninguém Sai Vivo”, tida como sua principal biografia, escrita pelos jornalistas Daniel Sugerman e Jerry Hopkins, que acompanharam o percurso de Jim desde quando ele era estudante de cinema na Universidade da Califórnia.

 

Poesia, prosa, filosofia



A arte que Jim Morrison representa faz lembrar que nem sempre a prosa e a filosofia estão mais próximas da realidade do que a poesia. Nos textos mais antigos que sobreviveram desde o mais remoto da Antiguidade Clássica, na Grécia Antiga, encontramos aqueles fundamentos que muitos escritores e muitos pensadores da linguagem e da Semiótica como Walter Benjamin, Roland Barthes, Umberto Eco, propõem como centro a partir do qual se desenvolve a cultura do que é humano: a poesia no ponto de partida dos caminhos que se bifurcam nos domínios da linguagem.

 



A poesia de Jim Morrison em
português, publicada pela Assírio &
Alvim, editora de Portugal: acima,
Os Mestres e as Criaturas Novas
e Uma Oração Americana. Abaixo,
as capas de Abismos e Últimos Escritos




Se voltamos aos mais antigos textos que a historiografia pode localizar, Platão e Aristóteles, e mesmo antes deles, na tradição da mitologia, encontramos a palavra no que ela tem de mágico e de criação do mundo tal e qual o conhecemos. Platão fala do “furor poético” que incorpora alguns seres, os seres iluminados, e faz deles interlocutores com o além, o sobrenatural, o desconhecido.

Os poetas, entre estes seres iluminados, seriam aqueles tomados pelo sopro de Orfeu, o primeiro entre os poetas, o filho do deus Apolo e descendente da família do deus Dionísio. Orfeu, aquele que estava predestinado a inventar a arte da música, encantando a tudo e todos com sua lira e transmitindo o grande segredo, mas um segredo cifrado em poemas musicais.








A questão transcendental



Esta mística da criação pela arte e pela poesia, do grande segredo cifrado nas palavras da criação poética, talvez seja a questão mais transcendental que acompanha a Arte e a Literatura desde o mais antigo da civilização humana. Basta lembrar que os manuais de História da Arte vão situar o começo de tudo muito antes da Grécia e das culturas da Antiguidade – segundo alguns há mais de 10 mil, 20 mil ou 30 mil anos, com a arte rupestre da Pré-História e suas imagens representadas nas paredes das cavernas: figuras humanas e bisões e outros animais ruminantes com dois chifres e quatro patas, pintados com sangue, carvão e extratos vegetais.

Imagens pintadas por quem e para quê? A resposta é difícil, quase impossível, mas abriga muitas possibilidades, a maior parte delas indicando que aquela arte rupestre estava a serviço de um ritual religioso: para festejar o passado, o presente ou o futuro, ou para registrar o sucesso da caça, ou para espantar os maus espíritos, ou para atrair os bons espíritos, mas por certo como diálogo do Homem com a Divindade do sobrenatural. 






Daqui Ninguém Sai Vivo, a mais
célebre das biografias de Mr. Mojo Risin',
foi publicada em 1979 por Daniel Sugerman
e Jerry Hopkins, e An American Prayer
última sessão de gravação de Jim Morrison
em estúdio, álbum que teve lançamento
póstumo e acréscimo de música incidental
por seus três companheiros de banda.
Abaixo, Jim Morrison em viagem pelo
deserto de Sierra Madre, no México, em
1969, fotografado por Jerry Hopkins;
Jim no palco em Nova York, em 1968,
fotografado por Yale Joel; e em uma
festa de amigos em Los Angeles
com a namorada de longa data,
Pamela Courson




 

Esta questão muito antiga reluz nas últimas décadas na figura e na poesia de Jim Morrison, esta persona bela e sedutora com suas imagens reproduzidas ao infinito nos últimos 50 anos, uma persona que encarna como nenhum outro, ou talvez mais do que qualquer outro, o espírito do tempo da Contracultura. Jim Morrison alcançou a personificação dos mitos da Antiguidade Clássica em plena Era Industrial.



Rock'n'roll e religiões ancestrais



Mas o que há em comum entre o rock'n'roll, a poesia e as religiões ancestrais? Estudioso da filosofia e da história, observador atento de seu tempo e da arte da literatura, Morrison, o poeta-xamã, também vem inscrever sua presença numa certa tradição da ruptura que é a própria tradição da poesia, da Antiguidade à Renascença, na baixa Idade Média, e daí às aspirações do sublime com os românticos da Europa, Goethe, Blake, Byron, Baudelaire, Rimbaud. 





 
Esta mesma tradição da ruptura encontra e fornece os fundamentos, no começo do século 20, para a Arte Abstrata e para a Literatura nos movimentos de vanguarda, para o Surrealismo, para o elogio aos estados alterados de consciência como possibilidade visionária, louvada por sucessivas gerações de artistas e poetas no último século – que também está nas raízes do que se convencionou chamar de rock'n'roll.

Na explosiva década de 1960, Jim Morrison vai incorporar esta persona do poeta, radical, indecente, profano, uma espécie de sacerdote no "casamento do céu e do inferno", para usar a expressão de William Blake, autor dos versos que inspiram a Morrison o nome da banda, The Doors. O que mais impressiona em Jim Morrison, ainda hoje, além de sua imagem sedutora, talvez seja a densidade da poesia que ele improvisa, enquanto seus companheiros de banda Ray Manzarek (teclados), Robby Krieger (guitarra) e John Densmore tocavam ao vivo, entre referências de blues, cantos tribais, melodias dos cabarés da primeira metade do século 20 e também da bossa nova do Brasil.






 

No alto, Jim Morrison em 1968
em foto de Linda McCartney. Acima,
Morrison & The Doors por Henry Diltz,
fotógrafo de Morrison Hotel e das
capas e encartes de outros álbuns da banda.
Abaixo, os quatro integrantes na arte da
capa do disco de estreia, lançado em
4 de janeiro de 1967, com fotos e arte
de Joel Brodsky, fotógrafo preferido
de Morrison; e Morrison em três
fotografias registras por Brodsky:
1) na célebre sessão de estúdio, em
1967; 2) nas capas dos livros e no
BLU-RAY R-Evolution, mais recente 
lançamento de gravações e performances
ao vivo que ainda permaneciam inéditas;
e 3) a reunião da banda em um outdoor
em Los Angeles, em 1967




 



Percepção mística



Mas inscrever Jim Morrison nesta tradição da ruptura, com fundamentos na história e na história da literatura, também é correr o risco de diminuir seu valor. Afinal, se a obra do poeta Jim Morrison é feita de citações e de diálogos com outros poetas e outros pensadores, isso poderia ser entendido também como uma tentativa de retirar dele, de sua arte, de sua poesia, o que ele mantém de mais autêntico e mais original.

Para concluir e lançar muitas outras dúvidas e perguntas, lembro um aspecto fundamental quando o assunto é a poesia de Jim Morrison: o fato de que vem dele, também, algumas das canções e performances mais intrigantes e explosivas da era do rock. Tão intrigantes que a imprensa dos EUA considerava Jim um "inimigo público" quando ele morreu, no início dos anos 1970. Sua imagem e a importância de The Doors entre o turbilhão de bandas da década de 1960 só seria reabilitada muitos anos depois.





 

Ou, dizendo por outras palavras: a poesia de Morrison, seus textos, suas performances, se tornam ainda mais absolutamente irresistíveis e encantadores quando vêm associados a sua voz, ao mesmo tempo máscula, vigorosa, estranha, sensual, melancólica, nas gravações que são a mais perfeita tradução dos festins apocalípticos do rock e também do xamã, do Rei Lagarto. Mr. Mojo risin'.

Um convite à reflexão, a poesia de Jim Morrison e suas gravações ao vivo e em estúdio com a banda The Doors estabelecem novas perspectivas e convergências cada vez mais raras e ausentes da cultura pop. Em seus extremos de poesia, música, teatro, ritual místico, a performance de Jim alcança e ultrapassa os nexos da cronologia existencial, conjugando o efêmero da experiência e a permanência visionária da percepção que nos permite ser e conviver – exatamente como convém à Grande Arte e à vida que segue, com seus mistérios e revelações.


por José Antônio Orlando.



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15 comentários:

  1. Que post belíssimo, professor! Não que isso seja novidade no Semióticas, mas esse é de primeiro time. Morrison foi muito mais que um doidão do rock e os Doors foram um grupo muito consistente musicalmente. E poder ler textos e livros em português que estabeleçam estas conexões é salutar. Parabéns!

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  2. Nem acredito no que vejo e leio aqui neste Semióticas. Este blog é sinistro. Cada visita que faço é uma viagem. Tenho até medo de entrar porque não consigo mais sair, fico só viajando e aprendendo. Só posso agradecer e dizer Parabéns.

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  3. Jorge de Assis Pereira8 de dezembro de 2013 23:37

    Semióticas, sempre um espetáculo: essa do Jim Morrison virou minha favorita. Não canso de ler e de curtir tanta beleza. Parabéns!

    Jorge de Assis Pereira

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  4. Muito bom. Amo Jim Morrison e agora também amo este site Semióticas. Lindos!

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  5. Natália Gonçalves12 de dezembro de 2013 22:14

    Parabéns pelo Prêmio Peixe Grande 2013 de Melhor Blog. Mais que merecido. Não há nada na Internet melhor que este Semióticas. Parabéns!!! (Natália Gonçalves)

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  6. Parabéns pelo blog, parabéns por este estudo maravilhoso sobre Jim e parabéns pelo Prêmio. Adoro este Semióticas!

    Elaine Dias

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  7. Anne Caroline da Matta17 de dezembro de 2013 21:18

    Seu blog é incrível. Merece todos os prêmios. Com Jim, ficou ainda mais show. Lindo, lindo!!!

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  8. Carla Lemos Camargos9 de janeiro de 2014 13:07

    Adorei. Alto nível. Seu blog Semióticas é maravilhoso, José. Parabéns!
    Carla Lemos Camargos

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  9. Então Morrison foi completamente original e ainda foi influenciado por tantas coisas e tantos outros autores? Estou encantada. Com Jim, com o blog, com todas as outras matérias que encontrei aqui. Virei sócia, pode?

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  10. Guilherme Albuquerque28 de março de 2014 10:29

    Excelente. Parabéns pelo alto nível desta matéria sobre Jim e do blog todo. Valeu! / Guilherme Albuquerque

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  11. Meu poeta Jimbo me trouxe até aqui e amei. Descobri meu blog dos sonhos. Trabalho lindo demais, José. Agradeço muito e virei fã na primeira visita. Quero morar neste blog Semióticas.

    Adriane Verardo

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  12. Admirável, agora estou louca para ler todos aqueles livros, saber mais de Jim Morrison, o Jim Morrison além do que eu sei de sua vida, tão pouco e tão raso diante da grandeza do que você coloca em Semióticas. Você é genial, não canso de dizer que é uma honra acessar o seu conhecimento, suas pesquisas e inspiração literária, aqui e nas redes sociais. Um grande abraço, querido José Antonio Orlando.

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  13. Obrigada mais uma vez por dividir algo tão sublime sobre um contexto tão grandioso!

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  14. O que posso dizer sobre o que acabei de ler, ao sentir? Nada.
    Falar em cima de algo tão incandesce - mente - "vira brasa".
    Clap Clap Clap para vc, fantasístico José Antonio Orlando, para esse blog surpreendente e, para o danado do prof Marcel. Muito obrigado.

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  15. Sandro Fernandes3 de julho de 2016 11:01

    Sensacional. Melhor matéria de todas que já encontrei sobre Jim Morrison e The Doors. Este blog Semióticas é o máximo. Show!

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