sábado, 26 de outubro de 2013

Darcy Guarani Kaiowá








Polêmico por sua defesa intransigente do foco em relação aos direitos dos índios e à prioridade para a educação no Brasil, antropólogo, sociólogo, educador, político, Darcy Ribeiro (1922–1997) foi atuante em projetos que marcaram época como a criação do Parque Nacional do Xingu e do Museu do Índio, além de ser um dos criadores e primeiro reitor da Universidade de Brasília e também autor de livros importantes, incluindo romances e estudos sobre os povos indígenas.

Em livros e projetos, Darcy Ribeiro continua correndo mundo, quase duas décadas depois de sua morte, aos 75 anos, em fevereiro de 1997. Recebeu muitas homenagens, concedeu entrevistas que marcaram época, defendeu causas que antes dele permaneciam no anonimato. Tive a sorte de participar de um breve encontro em 1994 com Darcy Ribeiro. A entrevista, publicada por um jornal de Belo Horizonte, foi um reencontro do então senador com jornalistas e fotógrafos em sua casa, em Brasília, depois de um longo período de tratamento médico.

Sempre engajado nas questões políticas, presença em momentos definitivos da História como ministro-chefe da Casa Civil do presidente João Goulart, no último governo democrático antes do golpe e da ditadura militar que tomou o poder em 1964, foi obrigado ao exílio, como muitos intelectuais brasileiros. Foi para o Uruguai. Em 1969, faria seu primeiro retorno ao Brasil, graças a um habeas corpus, mas com o AI-5, teve seus direitos novamente suspensos, acabou conduzido à prisão e depois ao exílio forçado, desta vez na Venezuela, no Chile e no Peru. No Chile, entre outras atividades, assessorou o presidente Salvador Allende, de quem se tornou grande admirador. 







Darcy Ribeiro: a partir do alto,
fotografado por Bob Wolfenson
em 1994. Acima e abaixo, Darcy
nas décadas de 1940 e 1950 com
os povos indígenas, em imagens
de divulgação da mostra O Olhar
Precioso de Darcy Ribeiro, que
apresentou fotografias da
década 1946-1956


 
Saudades do Brasil



O retorno ao Brasil, com a redemocratização, o levaria de volta à militância política e Darcy se elegeu vice-governador do Rio de Janeiro, de 1983 a 1987. Na gestão da agenda social do governo de Leonel Brizola, Darcy criou, planejou e dirigiu a implantação dos Centros Integrados de Ensino Público (CIEP), um projeto pedagógico visionário e revolucionário no Brasil de assistência em tempo integral a crianças, incluindo atividades recreativas e culturais para além do ensino formal.

Depois da experiência como vice-governador viriam outros cargos e gestões, até a eleição como senador, também pelo Rio de Janeiro, de 1991 até sua morte. Naquela entrevista, em 1994, como éramos mineiros, em maioria, Minas Gerais acabou sendo o tema principal. “Saí de Montes Claros, Minas Gerais, para estudar, e minha carreira me lançou aos índios, ao Rio de Janeiro, a Brasília, a São Paulo, ao exterior. A vida da gente são caminhos que se bifurcam”.

Comprometido com o mandato de senador em Brasília e travando sua batalha existencial contra a doença, Darcy dizia que não via a hora de retornar a Minas sem agenda, sem hora para voltar. “O fato concreto é que sou um mineiro isolado e, por isso às vezes passa pela minha cabeça fazer uma coisa em Minas ou participar da vida mineira. Minas está ficando careca, de Belo Horizonte a Montes Claros. E me dói ver como a canalha está acabando com a vegetação. Pequi, então, estão derrubando tudo para fazer carvão. Acabando com o cerrado, aquela beleza prodigiosa”.





Darcy ainda reclamou e ironizou os efeitos dos medicamentos, fez graça com os resultados da quimioterapia, da radioterapia. Depois brincou com os fotógrafos, dizendo que estavam proibidos os closes e os enquadramentos com planos fechados no rosto. “Só plano à distância. Close-up está proibido. Não tenho mais cabelos, não tenho sobrancelhas. Respeitem o velhinho. Está proibido!”, declarou, logo no começo da entrevista, encontrando piada para as mudanças que o tratamento prolongado contra o câncer provocava. Também quis saber o nome completo e a cidade de cada jornalista, cada fotógrafo.



Memórias da Mantiqueira



Minas exporta minérios e exporta mineiros. Mas a gente que é exportado, que vai para a Diáspora, continua com Minas no coração”, ele reconheceu, enquanto explicava que tinha pressa e falava sem parar, esticando o assunto com a história de vida de cada repórter. Quando chegou a minha vez, falei das origens na Serra da Mantiqueira, dos antepassados migrantes nas fazendas Catauá e Cabangu desde o século 19, italianos, turcos, holandeses. O assunto chegou nos irmãos Villas Boas e Darcy Ribeiro foi longe, provando por A mais B que conhecia muito mais a região e a história de meus antepassados do que eu jamais poderia supor.







O assunto Mantiqueira levaria Darcy Ribeiro aos comentários saborosos sobre a língua dos povos Tupi Guarani e daí a “Maíra”, seu romance autobiográfico de 1976, que relata passagens com os irmãos Villas Boas e seu próprio envolvimento com a causa indígena. Também falou dos outros romances, escritos durante as temporadas no exílio, mas reconheceu que são as páginas de “Maíra” que trazem o encantamento que também o levou às pesquisas de campo.

Em 1946, Darcy formou-se em Antropologia pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo e dedicou seus primeiros anos de vida profissional ao estudo dos índios do Pantanal Matogrossense, do Brasil Central e da Amazônia (1946-1956). Quando Darcy deixou Montes Claros e chegou a São Paulo para estudar, vinha de outra experiência marcante, depois de desistir do curso de Medicina em Belo Horizonte.










Temporadas entre povos indígenas


Saí de Minas com sentimento forte de missão. Na época eu recebi uma bolsa do sociólogo norte-americano Donald Pierson, fui ver no que dava o curso e acabei cumprindo o bacharelado em Ciências Políticas e Sociais”, ela recordou, com memória prodigiosa para datas, nomes, números, acontecimentos da História. Em 1947, foi contratado pelo Serviço de Proteção aos Índios (SPI), órgão indigenista criado no início do século pelo marechal Cândido Rondon, uma das figuras a inspirar Darcy no trabalho de assistência às populações indígenas.

No SPI, Darcy realizou pesquisas etnológicas, a maior parte durante períodos prolongados junto aos índios. Em mais de uma década de convívio em longas temporadas visitando os povos do Pantanal, do Brasil Central e da Amazônia, ele escreveria uma série de estudos e teses de referência em Antropologia e Etnologia, entre eles “Religião e Mitologia Kadiwéu” (1950), livro com o qual ganhou o importante prêmio Fábio Prado e, com ele, certa notoriedade. 






Em todas as obras e artigos que escreveu e publicou neste período, Darcy destaca a parceria fundamental da esposa, a antropóloga Berta Gleiser Ribeiro, que o acompanhava em viagens e pesquisas de campo, além de aparecer como co-autora em várias obras. Berta retorna à conversa e à história de Darcy várias vezes, assim como as lembranças de Minas e sua fala apaixonada pela causa indígena, que o levaram a participar de projetos como a criação do Museu do Índio e do Parque Indígena do Xingu.




Tempo da Utopia, o futuro



Os projetos da causa indígena, os rumos da educação pública e momentos importantes como a criação da Universidade de Brasília estavam no centro de atenção, durante a entrevista com Darcy, que enumerava projetos, possibilidades no futuro, o tempo da Utopia. “Dediquei a vida aos índios, à minha paixão por eles e também à escola pública. Minha vida é feita de projetos impessoais para passar o Brasil a limpo, porque o Brasil é máquina de gastar gente. Gastou seis milhões de índios e o equivalente de negros. Para eles? Não! Para adoçar a boca do europeu com açúcar, para enriquecer uns poucos. O povo foi gasto como carvão neste país bruto”.



 



Ele disse que eram ideias para um livro que estava finalizando, que reuniria algumas de suas confissões. “Mas não serão confissões sobre a culpa, à moda de Santo Agostinho. Será um acerto de contas com projetos e histórias que ficaram interrompidos no passado, será um inventário de lembranças importantes, para mim e para o Brasil. Vou falar até de Montes Claros, para que alguém se lembre daquele tal de Darcy Ribeiro que nasceu lá na terra do cerrado”, explica, trazendo de novo a ironia por causa dos efeitos do tratamento de quimioterapia e radioterapia.

Agora não posso aparecer por lá, em Montes Claros, porque vão fugir de mim. A doença me derrubou, derrubou meus cabelos. Estou vivendo períodos em que nem eu me reconheço. Olho no espelho e não vejo a minha cara. Eu tinha cabelos de poeta, adorava aquele cabelão. Até meus adversários admiravam e elogiavam meus cabelos e minhas sobrancelhas longas, desgrenhadas”, disse, entre a graça e o lamento sincero.



Visão de mundo



Prosador veterano, sábio, invariavelmente polêmico, Darcy fala com propriedade da visão de mundo dos índios e das grandes personalidades com as quais conviveu – as vezes em que encontrou Getúlio Vargas, o humor à flor da pele de Juscelino Kubitschek, a época de João Goulart, os capítulos de sua biografia que mais parecem um cronograma de História do Brasil: em 1955, foi encarregado por JK de comandar um programa nacional de alfabetização; em 1961, tornou-se o primeiro reitor da Universidade de Brasília; em 1963, assume o gabinete civil do presidente João Goulart. Depois veio a ditadura militar, a prisão, a vida no exílio.






A sinceridade de Darcy Ribeiro nunca evitou as críticas nem aos amigos mais próximos nem aos adversários. Ele citava de memória denúncias e dossiês sobre massacres e acusava seus pares da Antropologia de terem rompido seu compromisso com os povos que estudavam, em especial com os indígenas. Segundo Darcy, os antropólogos, em sua maioria, estavam transformados em “cavalos de santo” – aqueles que nos cultos de origem africana são tomados por entidades que vêm falar por meio deles. “Só que, no caso brasileiro, os antropólogos estão tomados por entidades do ‘primeiro mundo’, limitando-se a repetir em suas teses o que falavam os grandes intelectuais lá de fora”.

A conversa com Darcy Ribeiro tem a duração de pouco mais de uma hora, mas cada ponto da pauta rende do entrevistado revelações saborosas sobre a História e a Política, em Minas e em Brasília, no Brasil, sobre quem estava no poder e sobre os que já estiveram. Ele também envolve na prosa os grandes escritores mineiros do século 20, Drummond, Nava, Guimarães Rosa, Murilo Mendes, vai às referências do barroco, rende reverências ao gênio e às lendas sobre Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.

Minas é uma terra engraçada de gente engraçada que aceita a ideia de que um dos maiores escultores do mundo andava arrastando a bunda num pedaço de couro”, gracejou Darcy, rindo da própria piada até quase perder o fôlego. “O Aleijadinho é a prova concreta, cravada na pedra, de que Minas datou e atou o Brasil”, conclui Darcy. “Foi o espírito do barroco mineiro que garantiu a construção da alma brasileira. Tenho muito sentimento por isso e também o sentimento de que Minas tem pouco: é pouco dada, por exemplo, ao Aleijadinho”.





Confissões e sorrisos



O livro “Confissões” realmente foi publicado. Sairia em 1997 pela Companhia das Letras, com ilustrações de Oscar Niemeyer. Retornei à pauta daquela entrevista com Darcy Ribeiro no lançamento do livro e tempos depois, no final de 2010, quando foi aberta na Caixa Cultural Rio uma exposição inédita com 50 fotografias produzidas por Darcy Ribeiro nas temporadas que ele viveu com as tribos Kadiwéu, Urubu-Kaapor e Ofayé-Xavante.

Denominada “O Olhar Precioso de Darcy Ribeiro”, a mostra selecionou imagens que pertencem ao acervo do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), incorporado desde 2008 ao Registro Nacional do Programa Memória do Mundo, da Unesco. Nas fotografias de trabalho de Darcy, cenas do cotidiano das aldeias, tatuagens faciais de personagens diversos, rituais e anotações visuais acompanhadas de pequenos textos-legenda, para maiores explicações.

“O Olhar Precioso de Darcy Ribeiro” também incluiu a projeção do clássico filme de autoria de Hans Foerthmann “Um dia de uma tribo na floresta tropical”, recentemente restaurado e digitalizado, que conta a história dos índios Urubu-Kaapor, contactados por Darcy na década de 1940. Milton Guran, organizador da mostra, destaca que as séries de fotografias de Darcy são realmente especiais porque ele, ao fotografar, misturava os ânimos da descoberta científica e da experiência humana que os encontros interculturais possibilitam. 





No alto, Darcy Ribeiro com intelectuais
e presos políticos, nos tempos da ditadura
militar: Jorge Raymundo, Manoel Henrique
Ferreira, Perly Cipriano, Darcy Ribeiro,
Antonio Houaiss e Oscar Niemeyer.
Acima, Darcy com Brizola e Niemeyer
no apartamento de Darcy em
Copacabana, Rio de Janeiro, em 1996, no
lançamento da Fundação Darcy Ribeiro.
Abaixo, Darcy na praia de Copacabana,
quando retornou ao Brasil depois do
exílio imposto pela ditadura militar 



Ele fotografava para entrar em contato e produzia uma memória desse encontro. Sua fotografia superou o registro descritivo e adentrou pelo mundo da imaginação. Em suas imagens, a impressão que temos é que Darcy se deu ao luxo de agir como um flâneur, como se fora um turista acidental a cultivar relações e recolher lembranças”, explica o curador, enumerando algumas das reflexões que o pensamento teórico e as imagens documentais de Darcy Ribeiro representam.

O resultado da exposição, que segue em agenda itinerante pelas capitais, é um rico painel sobre as diferenças e a visão de mundo dos povos indígenas – que recebem de Darcy um registro fraternal e respeitoso, ainda que profundamente melancólico, mesmo quando um raro sorriso aberto do pesquisador abraçado aos índios Kadiweu no Mato Grosso do Sul, em 1947, é enquadrado pela câmera de Berta Ribeiro, sua esposa e companheira de missão.









Ao concluir este artigo sobre aquela entrevista de 1994 e sobre as fotografias de Darcy Ribeiro com os índios, recordo algumas de suas frases que fizeram história. Muitas delas, especialmente, são reveladoras sobre seu pensamento, sobre o acervo que ele deixou e sobre sua militância política. Palavras de Darcy:

"Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu".


por José Antônio Orlando.



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11 comentários:

  1. Alice Dias do Amaral31 de outubro de 2013 18:40

    Darcy faz muita falta. Parabéns pela bela matéria. Emocionante homenagem.

    Aline Dias do Amaral

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  2. Também fiquei emocionado com suas lembranças de Darcy. Brasileiro da maior importância. Parabéns, Semióticas. Seu blog é um espetáculo. / Júlio Carvalho.

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  3. Darcy Ribeiro! Além de show na cultura e na arte, este Semióticas também está na hora certa quando o assunto é política. Sou seu fã. Parabéns pela qualidade do blog em todas as páginas. Marcos Malagutti

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  4. Que lindo! Não sabia da importância de Darcy Ribeiro para a causa dos índios. Sou grata por tudo e pelo tanto que aprendo com você cada vez que chego aqui, meu querido autor de Semióticas. Parabéns!

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  5. Carlos Eduardo Albergaria12 de novembro de 2013 11:12

    Parabéns. Seu blog Semióticas é o melhor de todos os que conheço. Sou seu fã.

    Carlos Eduardo Albergaria

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  6. Zé, meu querido professor! Seu blog é lindo e inteligente como nenhum outro. Só não é melhor que suas aulas, mas também é um espetáculo. Descobri hoje e virei fã. Adorei. Parabéns demais!
    Sofia Nascimento

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  7. Bem lembrado. Darcy Ribeiro é daqueles Homens Ilustres que honram o nome de brasileiro. Seu blog é um espetáculo, José. Parabéns.

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  8. Anna Karina Santiago11 de março de 2015 21:39

    Fracassou não, Darcy. Você é um herói do povo brasileiro. Seu blog ganhou mais uma fã, professor José.

    Anna Karina Santiago

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  9. Ter acesso a esta pós graduação em História do Brasil... é impagável! Sinta seus pés beijados, Professor! Emocionante, rico, lindo, comovente, tocante, maravilhoso. Sempre grata a ti.


    Carmen.

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  10. Daniela de Almeida7 de setembro de 2016 17:21

    Preciso registrar aqui que estou emocionada com esta matéria maravilhosa. Que texto, que imagens mais lindas. Ganhou mais uma fã, meu querido José Antonio Orlando. Este blog Semióticas é um espetáculo em tudo. Parabéns.

    Daniela de Almeida

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  11. Victor Allan Lima1 de abril de 2017 08:18

    Maravilhosa homenagem a um dos brasileiros que mais admiro. Grande Darcy Ribeiro, orgulho de minha querida Montes Claros e orgulho do Brasil! Grande blog Semióticas! Agradeço por você compartilhar beleza e sabedoria em todas as postagens. Sou fã. Parabéns! Victor Allan Lima

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