domingo, 24 de março de 2013

Pink Floyd na Lua






Uma unanimidade: trata-se de um dos discos mais estranhos, belos e cultuados do século 20. A alquimia entre beleza e estranhamento começa na capa, com aquele facho de luz que atravessa um prisma e torna-se arco-íris, para prosseguir nas melodias – hipnóticas, psicodélicas, sofisticadas, em letras sobre a vida cotidiana, o amor, as perdas, tristeza, ambição, demência, medo de envelhecer e, principalmente, o valor da amizade.

Há exatos 40 anos, em 24 de março de 1973, foi lançado aquele que muitos consideram o melhor álbum de uma lenda no panteão do rock e da cultura pop chamada Pink Floyd – um disco que se mantém desde o lançamento entre os mais vendidos da história, primeiro no formato LP e agora em CD e arquivos digitais. 'The dark side of the Moon' merece ser definido como 'emblemático' – palavra que muitos usam, nem sempre com propriedade. Emblemático e obra-prima – com novidades musicais e técnicas que seriam rapidamente incorporadas pela maioria, todas em referência explícita a Syd Barrett (1946–2006), mentor do grupo, autor do nome da banda e de todas canções dos primeiros discos.

Barrett deixou o Pink Floyd em 1968 – mas os integrantes sempre afirmaram que, mesmo ausente, Barrett permaneceu como a mais forte influência na concepção e nos arranjos dos discos lançados por Roger Waters (compositor, baixista e vocalista), Nick Mason (compositor e baterista) e Richard Wright (compositor e tecladista), que dividiram com Barrett a criação original das principais ideias sobre música e estilo desde que os quatro eram estudantes em Cambridge, em meados da década de 1960.






 

Formação original do Pink Floyd 
no dia da comemoração da assinatura
do contrato com a gravadora EMI para o
lançamento do primeiro álbum da banda.
Nas fotos (acima e abaixo), a formação
original com Roger Waters, Nick Mason,
Syd Barrett e Richard Wright em Londres,
no início de 1967. No alto, fotografia e arte
para celebrar o 40º aniversário do lançamento
de The dark side of the Moon: o designer
Storm Thorgerson, criador da imagem
original do prisma da capa do álbum de
1973, criou 40 variações que estão
disponíveis para download no
site oficial do Pink Floyd








O nome do grupo, abreviação de The Pink Floyd Sound, foi criado por Barrett em homenagem aos músicos de blues Pink Anderson e Floyd Council. Os amigos de escola começaram a ensaiar juntos em 1965 e, no ano seguinte, contaram com um lance de sorte logo na estreia do nome Pink Floyd: o cineasta Michelangelo Antonioni assistiu a este primeiro show, num intervalo das filmagens de outra obra-prima, “Blow Up”, e convidou os quatro para compor a trilha sonora de “Zabriskie Point”, seu próximo filme.



De 'Blow Up' ao deserto de 'Zabriskie Point'



Com o aval de Antonioni destacado na imprensa e o sucesso de “Blow Up”, o Pink Floyd lança as primeiras canções ('Arnold Layne' e 'See Emily Play') e se torna o favorito do Underground. Quando surgiu o primeiro álbum, em 1967, 'The piper at the gates of dawn', a plateia já disputava ingressos para seus shows em casas que, por conta da banda, se tornariam lendárias – The Roundhouse, The Marquee Club, UFO Club.







Pink Floyd na Lua: no alto, a banda
 no camarim, em 1969, e na fotografia
escolhida para a capa de Ummagumma.
Abaixo, Waters, Mason, Wright e
Syd Barrett fotografados em 1967
no Hyde Park, em Londres, cenário
do filme Blow Up, de Michelangelo
Antonioni – e versões criadas por
Storm Thorgerson para a capa original
de The dark side of the Moon





Depois do primeiro álbum do Pink Floyd, viriam outros clássicos imbatíveis da era do rock, todos dedicados a Barrett e com letras e canções criados a partir de suas ideias originais: 'A saucerful of secrets' (1968), 'More' (1969), 'Ummagumma' (1969), 'Atom heart mother' (1970), 'Meddle' (1971), 'Obscured by clouds' (1972) e, finalmente, 'The dark side of the Moon' (1973).

A trajetória do Pink Floyd e as reverências ao talento inaugural de Barrett ainda incluiriam 'Wish you were here' (1975), 'Animals' (1977), 'The Wall' (1979). Há ainda os singles, as participações em trilhas sonoras de filmes, as coletâneas, os registros de shows ao vivo e um concerto impressionante, “Live at Pompeii”, transformado em documentário que chegou aos cinemas em 1974, com a banda tocando seis músicas no Piazza Anfiteatro, nas ruínas de Pompeia, na Itália, dirigido por Adrian Maben e gravado em 1971 sem ninguém na platéia. 








 

David Gilmour, que havia sido professor de guitarra de Barrett, chegou depois dele ao Pink Floyd – a princípio para atuar como guitarrista e backing vocal, mas também passou a protagonizar o papel de 'pomo da discórdia' em todas as gravações de estúdio e nas turnês, em conflitos que terminaram por levar ao fim da banda. Wright deixou o grupo em 1979 e Waters, que assumiu o posto de líder depois da saída de Barrett, declarou em 1985 o fim do Pink Floyd. Mas a história teria ainda um triste capítulo: inconformado com o fim da banda, Gilmour promoveu uma longa e intensa batalha na Justiça para continuar usando o nome e o repertório do Pink Floyd.



Processos e reprises diluídas



Por fim, David Gilmour acabou ganhando a causa, com um arsenal de liminares e advogados. Em seguida, montou uma nova banda (com participação ocasional de Mason e Wright) e lançou dois álbuns usando o nome Pink Floyd, com reprises diluídas e previsíveis dos grandes sucessos da banda – "A momentary lapse of reason” (1987) e “The division bell” (1994). A maioria dos críticos e dos fãs, entretanto, preferem considerar discos e shows de Gilmour como trabalho solo, da mesma forma que muitos consideram “The final cut” (1983) um trabalho solo de Roger Waters, mesmo que ele seja na temática e na técnica um disco do Pink Floyd e tenha contado com participação de todos os músicos da banda original, à exceção de Richard Wright. 






O reencontro do Pink Floyd no
Hyde Park: David Gilmour,
Roger Waters, Nick Mason e
Richard Wright no palco para o
show em Londres, em 2005, durante
o concerto beneficente “Live 8”
 

Em 2005, depois de quase duas décadas, os integrantes do Pink Floyd voltariam a se reunir para uma única apresentação no concerto beneficente 'Live 8'. Depois disso, Wright morreu em 2008 e somente em 12 de maio de 2011 Roger Waters, Mason e Gilmour voltaram a se encontrar no palco, em Londres, para um show de Waters na 'The Wall Tour'. Tocaram juntos dois clássicos do Pink Floyd: 'Comfortably numb' e 'Outside the Wall' – não por acaso outra homenagem a Syd Barrett – cuja presença, ideias e personalidade levaram Waters à criação de Pink, personagem central em 'The Wall', o disco e o filme, autêntica ópera-rock escrita por Waters e dirigida por Allan Parker em 1982.

A experiência de ouvir 'The dark side of the Moon' pode ser quase transcendental. Conheci o disco quase uma década depois do lançamento, quando ganhei o LP de presente de aniversário. Foi uma descoberta e tanto – que ainda perdura com toques de nostalgia a cada vez que ouço o disco ou apenas uma ou outra de suas dez canções. Sua mistura de beleza e estranhamento, com o passar do tempo, tem reforçado as lendas, que vão da simetria impressionante dos acordes do disco com as cenas do filme 'O mágico de Oz', de 1939, à inserção quase mística de mensagens cifradas e frases inteiras com ruídos bizarros do programa de TV do grupo Monty Python, idolatrado pelos integrantes do Pink Floyd e por sua legião de fãs.







Imagens rarar: todos os integrantes
do Pink Floyd com Syd Barrett (no alto)
e David Gilmour (sentado), reunidos
na mesma foto, em 1973. Abaixo,
David Gilmour e Syd Barrett de pé









O lugar de Syd Barrett



As lendas sobre o disco e suas versões saborosas são alimentadas por suas sucessivas reedições em novos formatos e suportes – entre elas a recente "The dark side of the Moon – Immersion box set", com seis CDs e DVDs que incluem remasterizações, demos, documentários e muitas entrevistas com o grupo e com técnicos que participaram das gravações no estúdio Abbey Road, entre junho de 1972 e janeiro de 1973, com participação importante do produtor Alan Parsons. Também não faltam itens de colecionador na memorabilia da banda – com destaque para o documentário 'Classic Albums: Pink Floyd and the making of The dark side of the Moon' (DVD, 2003), de Matthew Longfellow, e duas biografias, semelhantes e complementares.

Os dois livros, que receberam títulos quase idênticos no Brasil, foram escritos por jornalistas reconhecidos como especialistas: 'Os bastidores de The dark side of the Moon' (Editora Zahar), de John Harris, e 'Nos bastidores do Pink Floyd' (Editora Évora), biografia do grupo assinada por Mark Blake. Tanto Harris como Blake vão fundo nos detalhes da história da banda, reunindo depoimentos surpreendentes, mas ambos coincidem no destaque e no carisma de Syd Barrett, que contagiava a todos de imediato.





Barrett era um jovem com imenso e estranho carisma. Quando saiu da banda, inicialmente seus amigos acharam muito difícil continuar sem ele”, escreve Mark Blake, para quem o criador e mentor do Pink Floyd foi um poeta brilhante e um guitarrista dos melhores e mais inovadores, dos primeiros a explorar por completo as capacidades sonoras da distorção e a recém desenvolvida máquina de eco. Barrett, conclui Blake, influenciou em definitivo não só todo o som personalíssimo e incomum do Pink Floyd, mas também tudo o que foi feito depois dele. Não é pouco.


por José Antônio Orlando.



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Para visitar o site oficial do Pink Floyd, clique aqui.
 








16 comentários:

  1. Parabens pela matéria, lembrando que ao contrario do que diz o texto, Richard Wright NÃO participou das gravações do "The Final Cut".

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  2. Isso mesmo, Rogermetal, conforme diz o texto: (...) consideram “The final cut” (1983) um trabalho solo de Roger Waters, mesmo que ele seja na temática e na técnica um disco do Pink Floyd e tenha contado com participação de todos os músicos da banda original, à exceção de Richard Wright.
    Seja sempre bem-vindo, meu caro!

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    Respostas
    1. Obrigado! Sempre acompanho as postagens do blog, parabens pelo ótimo conteudo!

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  3. Só posso ouvir de novo o bom e velho Pink Anderson e Floyd Council e agradecer a esse Semióticas que ensinou um monte de coisas para mim que achava que sabia de tudo sobre The Dark Side of Moon e ensinou de um jeito que eu gostei demais e digo: esse Semióticas é a melhor coisa que descobri na Net em muitos e muitos meses. Bacana demais, meu querido José Antônio Orlando. Seu site é o máximo. Palmas palmas palmas. Virei visitante diário e fã de carteirinha tudo bem? Abraçaço!
    Antonio Lucianno

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  4. Orlando, bem bacana o texto. mt criativo.

    to vendo o blog, mt bom tb.

    no outros 300, tb temos espaços pros amigos do blog. se quiser, nos mandar algo.

    meu e-mail é ricardosalvalaio@hotmail.com

    abs.

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  5. Uau. Seu blog é uma beleza. E esta página, a melhor que já encontrei sobre minha banda do coração. Beijos de gratidão eterna!

    Caroline Lyra

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  6. Excelente matéria!
    Parabéns pelo blog, com o texto deu saudades de ouvir novamente o álbum.

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  7. Maria Teresa Alves17 de maio de 2013 08:41

    A minha lembrança das aulas e das provas difíceis de Semiótica na faculdade não chegam aos pés das páginas do seu blog. Parece que você tem o dom de esclarecer. Quando leio os comentários de gente que tem a sorte de ter você como professor fico até com inveja. Seu blog é maravilhoso. Cada assunto mais sedutor e tudo lindo. Ajuda a gente a pensar. Agradeço muito por sua generosidade em compartilhar sabedoria.
    Maria Teresa Alves

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  8. Impossível não ficar encantado com a beleza textual rica em conteúdo, referências e pela forma saborosa como o texto é montado. O uso de imagens e as informações preciosas tornam o Semióticas numa página obrigatória para quem curte temas instigantes e excelentes debates.
    Agradeço à equipe que escreve neste ótimo espaço educativo de formidável aprendizado e ensino.
    Parabéns!

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  9. Luis Paulo Figueiredo22 de junho de 2013 14:32

    Excelente. Eu, fã, só posso agradecer. Bom demais, Semióticas!

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  10. Seu texto lindo e essas imagens maravilhosas me levaram de volta até a primeira vez que ouvi este álbum e desde o primeiro riffe eu pensei este álbum é ótimo e eu vou gostar dele para sempre. Quase quarenta anos atrás! Quando cheguei neste blog sensacional e achei essa reportagem sobre meu favorito Album EVER!! tive as mesmas sensações. Parabéns, Semióticas. Agora cheguei aqui para ficar porque estou me sentindo exatamente o mesmo que eu era naquela época (sorriso). Só posso agradecer!!! - Cézar de Souza

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  11. Excelente!... tiro o chapéu, parabéns.

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  12. Míriam Silva Jeremias15 de dezembro de 2014 12:18

    Estou emocionada. Nunca vi uma abordagem que fosse tão linda sobre minha banda preferida. Amei, Semióticas, amei! Míriam Silva Jeremias

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  13. Meu irmão que texto gostoso de ler. Gratidão.

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  14. Sensacional! Melhor aula que já tive na vida sobre Pink Floyd, minha banda melhor do mundo. Só agradeço. Valeu Semióticas!!!

    Sandro Fernandes

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  15. Seus textos foram e são escritos para serem lidos e relidos muitas vezes, assim como é importante também frisar que o frescor de encantamento é o mesmo que o da primeira leitura. Sempre!
    A abordagem que você fez, acerca de tudo o que diz respeito a Pink Floyd e ao álbum The dark side of the Moon, foi perfeita. Tão perfeita quanto a própria banda.
    Nos 40 anos em comemoração ao álbum The dark side of the Moon, no site oficial da banda, eu, como fã, tive o privilégio e a felicidade de deixar minhas mensagens cravadas na Lua. Um momento mágico, uma emoção única.
    Agora, deixar registrada minha mensagem aqui no seu blog Semióticas é felicidade dupla.
    Hoje, estou reunindo, em um mesmo lugar, três preciosidades para mim: Pink Floyd, o álbum The dark side of the Moon e seu blog Semióticas. Sensacionais.
    Texto show, belas imagens e sua competência de sempre, só pra variar.
    Sucesso e vida longa a seu blog maravilhoso, querido José Antônio Orlando! Beijo
    Edi Lopes

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