quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Caras do Brasil








Obras-primas e obras menores da literatura, cinema, artes plásticas, música popular e outras artes, retomadas sob novas fronteiras disciplinares, fornecem ao professor Wander Melo Miranda os referenciais e dispositivos de leitura comparativa para os ensaios reunidos em “Nações Literárias” (Ateliê Editorial). Com um fio condutor sobre a questão interdisciplinar da identidade cultural, os ensaios não foram organizados em ordem cronológica, mas formam no livro um conjunto coeso e surpreendente, organizado em três blocos temáticos.

A política e a economia são discursos autoritários, fechados, enquanto a literatura e as outras artes apresentam discursos abertos a novas interpretações que permitem mais liberdade”, explica o professor em entrevista por telefone, concedida às vésperas do lançamento do livro em Belo Horizonte. Diretor da Editora UFMG, professor de graduação e pós-graduação, mestre em Letras e doutor pela USP, Wander também é coordenador de estudos sobre o Acervo de Escritores Mineiros e, entre seus livros publicados, há obras de referência em destaque na fortuna crítica de vários autores, entre elas “Corpos Escritos: Graciliano Ramos e Silviano Santiago” (Edusp/Editora UFMG, 1982).

A literatura e os outros sistemas de representação cultural da arte, nas mais diversas mídias e suportes materiais ou tecnológicos, defende o professor, ainda são os melhores instrumentos para abordar os conceitos de nação e de identidade cultural. “Os discursos da literatura e das artes não são discursos melhores que os outros discursos, mas permitem maior liberdade porque representam o lugar no qual sempre é o outro que vem dizer. Esse outro é o que se tem que saber ouvir”, destaca. 







Personalidades da literatura no Brasil:
no alto, Sérgio Buarque de Holanda, José
Olympio, Jorge Amado, José Lins do Rego,
Graciliano Ramos e Carlos Drummond
de Andrade em caricatura de Eduardo
Baptistão. Acima, Drummond, Vinicius
de Moraes, Manuel Bandeira, Mario
Quintana e Paulo Mendes Campos
em 1966, na casa de Rubem Braga, no
Rio de Janeiro. Abaixo, um encontro
de Drummond, Guimarães Rosa
e Manuel Bandeira em 1960



 
Os ensaios reunidos em “Nações Literárias”, originalmente publicados ou apresentados em congressos e simpósios científicos, no Brasil e no exterior, entre 1984 e 2008, propõem análises que passam por obras de João Gilberto Noll a Wim Wenders, de Ricardo Piglia a Rosângela Rennó, de Silviano Santiago ao grupo O Rappa, de Guignard a Ary Barroso, interpelando alguns dos pressupostos teóricos contemporâneos, de Frederic Jameson e Alain Badiou a Martin-Barbero e Néstor Garcia Canclini.



Tons plurais da cultura e da nação



Nos 18 ensaios reunidos, há ainda as referências a críticos do passado e do presente, conjugados com erudição e maestria, demarcando um retrato do Brasil visto pelas lentes de um dos nomes importantes da intelectualidade contemporânea. As cores e os tons plurais da cultura e da nação brasileira também mostram suas nuances e sons em vozes narrativas e imagens espelhadas em mestres como Charles Baudelaire, Walter Benjamin, Jorge Luis Borges, mas sem nunca perder de vista a sofisticada tradição da criação literária brasileira nos dois últimos séculos – dos pioneiros a Alencar, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Lúcio Cardoso, Cornélio Penna, as memórias de Pedro Nava, Drummond, Murilo Mendes – e seus reflexos na literatura que se produziu no Brasil da última década, incluindo Chico Buarque, Paulo Lins, Fernando Bonassi...







Amizade, literatura e MPB: No alto,
Tom Jobim e Drummond em 1973. Acima,
Chico Buarque, Tom Jobim e Vinicius de
Moraes fotografados de pernas para o ar
em uma churrascaria de Ipanema por
Evandro Teixeira para o Caderno B
do Jornal do Brasil em 1979. Abaixo,
Ary Barroso e Carmen Miranda,
o compositor e a intérprete mais famosa de
Aquarela do Brasil, em Hollywood, 1942;
e Graciliano Ramos, tema de outro livro
de Wander Melo Miranda, Corpos Escritos,
publicado em 2009, em fotografia de 1932






O autor reconhece que a  literatura divide os holofotes do destaque, no livro, com outras artes e discursos, mas na entrevista o professor admite que a música popular permanece como a grande expressão da cultura nacional para a imensa maioria da população. “Como a literatura, a música popular também traz a experiência autêntica de um saber sem certezas, um lugar de liberdade e de mobilidade de sentido”, explica. 

“Dos pioneiros a Pixinguinha e daí a artistas nacionais em evidência em nossos dias, a música popular guarda qualidades que são um convite ao olhar crítico”, defende Wander, aliando à música a produção audiovisual de cinema e TV como formas privilegiadas de comunicação com extensas camadas do público e com as formas da tradição.


  

Luís Gonzaga (1912–1989) aos 27,
em 1939, quando deu baixa no Exército
para se dedicar à música e tornar-se uma
das mais importantes e inventivas figuras
da música popular no Brasil, sempre
acompanhado da sanfona, da zabumba
e do triângulo, levando a alegria dos forrós
e das festas juninas do sertão nordestino
para outras regiões do país, numa época em
que a maioria dos brasileiros desconhecia
o baião, o xote, o xaxado. Abaixo,
Pixinguinha (1897-1973), outro veterano
da música no Brasil, fotografado ao piano,
com Vinicius de Moraes; com Elizeth
Cardoso, Clementina de Jesus e Cartola;
e com Dorival Caymmi e Ary Barroso





De certa forma, a paleta da violência domina a música popular, como domina a estrutura narrativa de filmes de sucesso como 'Cidade de Deus' e 'Tropa de Elite'. Neste caso, são filmes que abordam a violência e também fazem dela sua estratégia de linguagem”, conclui. Mas se a literatura mantém sua primazia nos domínios da arte e da cultura, como analisar as novas tecnologias em suas interfaces com a obra literária?

As novas tecnologias oferecem a democratização do acesso à informação, mas não dão conta da questão do juízo de valor. Obras de Freud e blogs de adolescentes se equivalem no universo da Internet. O que só é positivo, a princípio, porque oferece novas possibilidades. Mas confesso que minha preferência é pela literatura tradicional e pelo livro impresso”, completa.












No alto, capa da primeira edição do
romance de Paulo Lins, que foi editado 
em 1997 pela Companhia das Letras, e
a edição atualizada pelo autor depois do
sucesso do filme Cidade de Deus (2002),
de Fernando Meirelles e Kátia Lund. Acima,
Carlos Kroeber e Norma Benguel em
A Casa Assassinada (1971), filme de
Paulo Cesar Saraceni baseado no
romance de Lúcio Cardoso, que
teve primeira edição em 1959 pela
José Olympio. Abaixo, o autor de
Nações Literárias, Wander Melo
Miranda, em foto de 2010
 

A dedicação à pesquisa sobre os cânones da tradição literária transparece nas entrelinhas em ensaios como “As casas assassinadas”, leitura comparada dos romances “A menina morta” (1954), de Cornélio Penna, e “Crônica da casa assassinada” (1959), de Lúcio Cardoso. Wander argumenta: “Se 'A menina morta' retrata o passado da gente brasileira, da fase da defrontação dos adventícios, onde deitaria raízes o espírito nacional em processo de definição, 'Crônica da casa assassinada', por sua vez, é a resultante levada ao extremo dos descaminhos deste processo”.

Através dos romances de Cornélio Penna e Lúcio Cardoso, Wander Melo Miranda chega ao conceito de “nação” e sinaliza sobre a complexidade que é pensar esse conceito hoje, em meio às culturas híbridas, em tempos de globalização e proliferação dos meios de comunicação, da internet, das redes sociais, da circulação planetária de pessoas (pelos mais diversos motivos, do exílio político ao turismo de massa) e de bens culturais. “Por que sul-americano e não apenas brasileiro?”, questiona o autor.

Frente à vida cotidiana e ao jornalismo mais ordinário, que apresentam a “nação nossa de cada dia” como uma metáfora da casa assassinada, atulhada de vestígios e memórias, os ensaios e questionamentos reunidos em “Nações Literárias” configuram um alerta sobre as metamorfoses que certos conceitos adquiriram no decorrer do último século e especialmente nas últimas décadas – para que possamos considerar e dimensionar o valor real da “nação” e suas fronteiras, sejam elas territoriais, linguísticas, culturais.

 
por José Antônio Orlando.


Para comprar o livro "Nações Literárias", de Wander Melo Miranda,  clique aqui.

Para comprar o livro "Cidade de Deus", de Paulo Lins,  clique aqui.


Para comprar o livro "Crônica da Casa Assassinada", de Lúcio Cardoso,  clique aqui.







Sumário de “Nações Literárias”

Parte I
  • Nações Literárias
  • Heterogeneidade e Conciliação em Alencar
  • Imagens de Memória, Imagens de Nação
  • Sem Pátria
  • As Casas Assassinadas
  • Anatomia da Memória
  • Tons da Nação na MPB
Parte II
  • Pós-Modernidade e Tradição Cultural
  • Fronteiras Literárias
  • Ficção Virtual
  • A Liberdade do Pastiche
  • A Memória de Borges
  • Memória: Modos de Usar
  • Ficção-Passaporte para o Século XXI
Parte III
  • Local/Global
  • Não Mais, Ainda
  • A Forma Vazia: Cenas de Violência Urbana
  • Latino-Americanismos



“De certa forma, a paleta da violência domina
a música popular, como domina a estrutura
narrativa de filmes de sucesso como
'Cidade de Deus' e 'Tropa de Elite'"

(Wander Melo Miranda)

 

9 comentários:

  1. Carlos Nelson Ferreira15 de outubro de 2012 16:10

    Que belo texto e que blog incrível, José! Eu sei que hoje é cada vez mais corriqueiro alguém publicar um blog, mas no seu caso é muito diferente. As questões aqui apresentadas, além do alto nível erudito, trazem sempre uma leveza que seduz e leva o leitor, mesmo o mais simples, a mergulhar neste mar de conhecimento e sofisticação. Você conclui o texto dizendo que “Nações Literárias” configura um alerta sobre as metamorfoses que certos conceitos adquiriram no decorrer do último século e especialmente nas últimas décadas. O alerto serve também como convite à sabedoria que este blog Semióticas oferece – para que possamos, com conhecimento de causa, considerar e dimensionar o valor das fronteiras e suas metamorfoses, sejam elas territoriais, linguísticas, culturais. Parabéns demais!

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  2. Cada página que encontro em seu blog vale por infinitas outras de outros blogs. Esta aqui então, parece que estou ouvindo sua bela voz em sala de aula, sempre com raciocínios surpreendentes que levam a gente a pensar muito e a aprender. Ter sido sua aluna foi das experiências definitivas que tive. Agradeço aos céus. Beijos, professor. Continuo cada vez mais sua fã.
    Aline

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  3. Parabéns pelo texto e o comprometimento com o tema.
    É fato e verdadeiro a importância da literatura nacional, assim como a música. Vi no texto a sua profundidade sobre o assunto e a verdade nos fatos narrados.
    Parabéns.
    Gostei muito do convite a visitar e sempre que puder, mande-me novamente o link das próximas postagens.
    Apesar de eu ser uma mulher moderna e que ama tecnologia, que lê ebooks, assim como o autor em "confesso que minha preferência é pela literatura tradicional e pelo livro impresso”, também faço a minha confissão. Nada melhor que o cheiro de um livro.
    Vou navegar um pouco mais em Semioticas.

    Abraços.
    @PaulaReRJ

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  4. Faço questão de registrar aqui um elogio. Texto excelente com edição de imagens primorosa. Vi que há por aqui muitos elogios de leitores, mas não há nenhum exagero. De todos os blogs que já visitei, este aqui é de uma superioridade para envergonhar os sites de jornais e revistas. Parabéns, parabéns!

    Alfredo Feitosa

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  5. Parabéns pelo blog, sério e muito lindo. Virei sua fã já na primeira visita. Tudo nota 10, tudo espetáculo. (Cláudia Vianna)

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  6. Ana Clara Guimarães27 de junho de 2014 20:49

    Querido professor: lembrei de suas aulas maravilhosas quando encontrei o link do seu blog no Facebook. Tudo aqui é também perfeito e inspira a gente a querer ir sempre mais além. Que você continue inspirando muita gente a amar a cultura e o Brasil por muitos e muitos anos. Saudades imensas. Beijo e parabéns de novo. Amei.

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  7. Qualquer palavra minha que eu faça constar aqui poderá ser definida como redundância,
    senti todas as emoções aqui constantes, desde o comentário de Carlos Nelson Ferreira, que me emocionou, até chegar no de Ana Clara Magalhães, que fecha com chave de ouro meus perceberes, sentires e emocionares diante de mais uma página impagável de sua autoria, José Antonio.
    Maravilhada... esta é a palavra. Por trazer em sua essência, em seu bojo o sentido de céu, de mundo paralelo de beleza pura e arte autêntica. AMO!

    Sempre grata.
    abraços.

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  8. Belíssima matéria e entrevista da maior importância. Já encomendei o livro. Agradeço pelo alto nível e pela clareza de ideias. Este seu blog Semióticas é o máximo! Parabéns!

    Marcelo Figueiredo

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  9. Maria de Fátima Rosenfeld22 de setembro de 2016 18:07

    Maravilhosa matéria, maravilhosa entrevista. Parabéns pelo alto nível de tudo neste blog Semióticas. Aprendo muito em cada matéria que encontro por aqui. Sou fã.

    Maria de Fátima Rosenfeld

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