segunda-feira, 21 de maio de 2012

Trevisan vence Camões








Há quem já aposte que nem dessa vez ele vai aparecer em público, para manter a mística da reclusão que vem sendo cultivada há mais de meio século. O mais misterioso dos escritores brasileiros, Dalton Trevisan, de 86 anos, foi anunciado hoje, em Lisboa, como vencedor da maior honraria da língua portuguesa, o Prêmio Camões. O júri, formado por dois nomes do Brasil, dois de Portugal e dois africanos (de Moçambique e de Angola), foi unânime na escolha para esta 24ª edição do prêmio.

Contrariando aquele aforismo atribuído a Nelson Rodrigues, a qualidade da literatura de Dalton Trevisan há um bom tempo tornou-se unanimidade. Um dos jurados brasileiros, o escritor Silviano Santiago destacou na justificativa para o Prêmio Camões que a obra de Trevisan apresenta “uma contribuição extraordinária para a arte do conto, em particular para o enriquecimento de uma tradição que vem de Machado de Assis, no Brasil, de Edgar Allan Poe, nos EUA, e de Borges, na Argentina”.

Nascido em Curitiba, em 14 de junho de 1925, Dalton Trevisan estreou na carreira literária aos 20 anos, com “Sonata ao Luar” (1945), coletânea de contos ousada e de qualidade incomum atestada há décadas pelos críticos mais exigentes. O recluso e misterioso Trevisan também é o que se pode chamar de prolífico: publicou mais de 40 livros, a grande maioria de contos, e continua em plena atividade. Seu último livro de inéditos saiu em 2011, com o título “O Anão e a Ninfeta”.





Dalton Trevisan fotografado nas ruas de Curitiba:
reclusão vem sendo cultivada há mais de meio século




Além de conquistar a distinção máxima do Prêmio Camões, Dalton Trevisan é daqueles escritores que colecionam premiações importantes, entre elas prêmios Jabuti (com "Novelas nada Exemplares", de 1959, "Cemitério de Elefantes", de 1964, e “Desgracida”, de 2010), o Prêmio Ministério da Cultura de 1996, pelo conjunto da obra, e o 1° Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira, em 2003, com o livro “Pico na Veia”. As premiações, contrariando uma prática cada vez mais comum, não provêm de lobby nem de estratégias massivas de marketing. Muito pelo contrário: trata-se de um escritor avesso a entrevistas e a qualquer forma de autopromoção.

A mística da reclusão é o que tem prevalecido. Tanto que, no comunicado oficial do Prêmio Camões, enviado hoje à imprensa, a organização divulgou que não havia conseguido contato com Dalton Trevisan nem para avisá-lo da homenagem e dos 100 mil euros (cerca de R$ 268 mil) a que ele tem direito pela distinção. Não é uma novidade, já que o escritor tem por regra nunca comparecer às cerimônias: para receber os prêmios, sempre enviou representantes.







Geração de 45


Traduzido em diversas línguas, Dalton Trevisan conta com várias de suas obras adaptadas para teatro, cinema e TV. Entre as adaptações, pelo menos duas se destacam: uma inusitada série produzida recentemente pela TV da Hungria e o filme premiado no Brasil e em outros países “Guerra Conjugal” (1975), versão do cineasta Joaquim Pedro de Andrade para os contos reunidos no livro homônimo, publicado em 1969.

Dalton Trevisan começou a publicar em 1945, apesar de mais tarde ter renegado os seus dois livros de juventude: "Sonata ao Luar" e "Sete Anos de Pastor" (1948). No período entre a publicação dos primeiros livros, de 1946 a 1948, liderou o grupo que editou a revista de literatura "Joaquim", anunciada como "uma homenagem a todos os Joaquins do Brasil", com traduções da lavra de Trevisan para clássicos da literatura universal, entre eles contos e trechos de romances de Franz Kafka, James Joyce, Marcel Proust e Jean-Paul Sartre. 






Duas cenas de "Guerra Conjugal", adaptação do livro
homônimo de Dalton Trevisan filmada por Joaquim Pedro
de Andrade em 1975, com Lima Duarte, Analu Prestes,
Wilza Carla, Carlos Gregório e Jofre Soares no elenco


Joaquim” também marcou época porque trazia a cada número a colaboração de nomes importantes da cultura brasileira, incluindo ensaios de Antonio Cândido, Tristão de Athayde e Otto Maria Carpeaux, entre outros, com ilustrações assinadas por artistas como Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres, além de contos e poemas até então inéditos – como o depois célebre "O Caso do Vestido", de Carlos Drummond de Andrade.

A lista de livros de Dalton Trevisan inclui títulos que vão de “Guia Histórico de Curitiba”, “Os Domingos” e “Crônicas da Província de Curitiba”, publicados em 1954 e escritos à moda dos panfletos populares e dos manuais que circulavam nas feiras, a exercícios de metalinguagem (“Capitu Sou Eu”, 2003) e crônicas policiais mais violentas, caso de “Morte na Praça” (1964), “Crimes da Paixão” (1978) e “Lincha Tarado” (1980).







Seu livro mais conhecido, “O Vampiro de Curitiba” (1965), muitas vezes tomado como codinome do autor, reúne as características mais marcantes de seu estilo minimalista e personalíssimo: contos sempre breves e cruéis, recheados de ironia e erotismo. São textos que transformam tramas psicológicas em crônicas de costumes, todas construídas em linguagem das mais concisas que valoriza incidentes do cotidiano, incluindo crimes, perversões, paixões extremadas e afetos não correspondidos.

Misterioso até para seus poucos conhecidos e vizinhos em Curitiba, Dalton Trevisan trabalhou em uma fábrica de vidros, foi jornalista dedicado à cobertura de casos de polícia e crítico de cinema, além de ter exercido por vários anos a advocacia. Na historiografia da literatura brasileira, ele é apontado como um dos principais contistas do século 20 e expoente da chamada Geração de 45, que alguns também classificam como “pós-modernista”, na qual também se destacam Clarice Lispector e João Cabral de Melo Neto, entre outros. Trevisan publicou apenas um romance: “A Polaquinha”, em 1985.








Relações culturais


Além de Silviano Santiago, o júri desta edição do Prêmio Camões que premiou Dalton Trevisan foi formado pelos professores universitários e escritores Alcir Pécora (Unicamp – Brasil), Rosa Martelo (Faculdade de Letras do Porto) e Abel Barros Baptista (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas de Lisboa), pela poeta e historiadora angolana Ana Paula Tavares e pelo também historiador moçambicano João Paulo Borges Coelho.

Criado em 1988 para destacar a importância da literatura e para intensificar e complementar as relações culturais entre o Brasil e Portugal, o Prêmio Camões também conta atualmente com a adesão da Comunidade de Países da Língua Portuguesa (CPLP). O português Miguel Torga foi o primeiro vencedor, em 1989. A maior polêmica veio em 2006, quando o angolano José Luandino Vieira, em protesto político, se recusou a receber o prêmio. José Saramago, o único Nobel de Literatura da língua portuguesa, também foi laureado pelo Prêmio Camões em 1995.







Dos 24 nomes já premiados com o Camões, incluindo Dalton Trevisan, dez são portugueses, dez são brasileiros, dois são angolanos e há um moçambicano e um cabo-verdiano. Os brasileiros premiados são João Cabral de Melo Neto (1990), Rachel de Queiroz (1993), Jorge Amado (1994), Antonio Candido (1998), Autran Dourado (2000), Rubem Fonseca (2003), Lygia Fagundes Telles (2005), João Ubaldo Ribeiro (2008) e Ferreira Gullar (2010).


por José Antônio Orlando.



Todos os vencedores do Camões:


1) 1989: Miguel Torga (poeta e romancista português)

2) 1990: João Cabral de Melo Neto (poeta brasileiro)

3) 1991: José Craveirinha (poeta moçambicano)

4) 1992: Vergílio Ferreira (romancista português)

5) 1993: Rachel de Queiroz (romancista brasileira)

6) 1994: Jorge Amado (romancista brasileiro)

7) 1995: José Saramago (romancista português)

8) 1996: Eduardo Lourenço (crítico literário e ensaísta português)

9) 1997: Pepetela (romancista angolano)

10) 1998: Antonio Cândido (crítico literário e ensaísta brasileiro)

11) 1999: Sophia de Mello Breyner Andresen (poeta portuguesa)

12) 2000: Autran Dourado (romancista brasileiro)

13) 2001: Eugénio de Andrade (poeta português)

14) 2002: Maria Velho da Costa (romancista portuguesa)

15) 2003: Rubem Fonseca (romancista brasileiro)

16) 2004: Agustina Bessa Luís (romancista portuguesa)

17) 2005: Lygia Fagundes Telles (romancista brasileira)

18) 2006: José Luandino Vieira (escritor angolano; recusou o Prêmio Camões)

19) 2007: António Lobo Antunes (romancista português)

20) 2008: João Ubaldo Ribeiro (romancista brasileiro)

21) 2009: Armênio Vieira (escritor de Cabo Verde)

22) 2010: Ferreira Gullar (poeta brasileiro)

23) 2011: Manuel António Pina (poeta, cronista, dramaturgo e romancista português).

24) 2012: Dalton Trevisan (contista e cronista brasileiro).



Dalton Trevisan retratado no traço de Loredano

6 comentários:

  1. Júlio César Soares21 de maio de 2012 18:59

    Rápido no gatilho, como sempre, não é mesmo José Antônio Orlando? Maravilha de texto, mais que uma aula sobre literatura contemporânea, ainda mais que vem emoldurado pela mais incrível seleção de imagens que eu já tinha visto sobre o "vampiro" de Curitiba. Vamos ver se os jornais de amanhã vão chegar aos pés de uma matéria tão especial como esta. Seu blog é um show, meu querido. Parabéns pelo altíssimo nível, difícil de igualar!!!

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  2. Bela reportagem e belíssima edição. Dalton Trevisan é grandioso com seus textos tão breves e tão fora do comum. Gostaria de saber um pouco mais sobre a Geração de 45, professor José Orlando. Tem sugestão de algum site ou algum livro sobre o assunto?
    Parabéns pelo blog. É um show!

    Mário Alex Machado Sobrinho

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    Respostas
    1. Olá, Mário Alex.
      Grato pelos elogios.
      Sobre a Geração de 45, é importante lembrar que ela deve ser situada como parte integrante do Modernismo, apesar de algumas questões de oposição que surgem a partir deste período em relação à primeira geração modernista. Sobre a bibliografia, que tal começar por “Literatura e Sociedade”, do Antonio Cândido? É um clássico, obrigatório para quem estuda a literatura e a cultura no Brasil, e aponta três fases de culminância literária: a árcade, a romântica e a modernista. A primeira por iniciar a literatura de cunho nacional, a segunda pela afirmação e pela continuidade do valor da língua portuguesa e a terceira pelo desprendimento, pela valorização do popular e do folclórico e pela despreocupação de se parecer com Portugal. Cândido chega até os expoentes da década de 1960 e só peca por deixar de fora de sua proposta historiográfica o barroco (do Padre Antônio Vieira, de Gregório de Matos e vários outros), mas isso já é outra história...
      Seja sempre bem-vindo ao blog. Abração!

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  3. José não tenho mais adjetivos para ti!!! Para além de Trevisam, uma aula de literatura e ainda fechas com Literatura e Sociedade de Antonio Cândido. O que dizer pra ti????
    Obrigada por cada ensaio.
    Abraços
    Benilde

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  4. Seja sempre muito bem-vinda, minha querida Benilde. Muito grato por seus elogios e pela gentileza. Bons leitores é que são cada vez mais raros, como diria o sábio Borges. Beijos...

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  5. Acho que nunca encontrei um site como este Semióticas, com um conjunto de páginas tão primorosas no texto, na escolha dos temas e na edição edição de imagens. Vou ter que voltar muitas outras vezes, sempre.
    Parabéns, José. Estou impressionado. Apenas proponho uma pequena alteração na sua citação de Borges logo acima: bons leitores são raros, sim, mas autores como você só há um entre milhões e milhões.
    Desejo toda a boa sorte do mundo!

    Pedro Thomas

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